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30/09/2017
Em MT, casos de suicídio caem quase 10% no semestre, mas assunto ainda é tabu

Em MT, casos de suicídio caem quase 10% no semestre, mas assunto ainda é tabu


 

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Suic�dio

MT teve,  de janeiro a junho em 2016, 87 casos de suicídio; neste ano, no mesmo período, 79; queda de 9,19%

Em tempos de Baleia Azul, quando a brincadeira vira morte, é preciso discutir suicídio - assunto restrito e pouco comentado na mídia. Todavia, ganhou destaque após ser enredo da produção norte-americana 13 Reasons Why, angustiante série da Netflix que relata o suicídio da adolescente vítima de bullying Hannah Becker, encontrada morta, com os pulsos abertos à faca, na banheira.

Após o sucesso dessa série, aumentou a procura pelo serviço do Centro de Valorização da Vida (CVV), que atende pelo número 141. No encerramento da campanha Setembro Amarelo, mês que entende a importância da prevenção do suicídio, realizada desde 2015 no Brasil, o  separou alguns dados alarmantes sobre este problema de saúde pública. Mesmo diante dos números, o tema ainda é tratado de forma silenciosa e considerado tabu.

Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), 32 pessoas se suicidam por dia no Brasil. Os dados podem ser mais assustadores, quando apontam que uma pessoa se mata a cada 45 minutos.

A OMS também cita que o suicídio está entre as três das principais causas de morte entre pessoas na faixa etária entre os 15 e os 44 anos, sendo a segunda a dos mais jovens, entre as pessoas de 10 a 24 anos.

O Mapa da Violência mostra um cenário ainda mais preocupante. De acordo com os dados, entre os anos de 2002 e 2012, o total de suicídios passou de 7.726 para 10.321 - um aumento de 33,6%.

Em Mato Grosso, segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), em 2016, de janeiro a junho, foram 87 casos de suicídio. Neste ano, no mesmo período, 79 casos. A queda é de 9,19%.

A maioria desses casos, segundo especialistas, está ligada a transtornos psiquiátricos e também à depressão, que segundo a OMS cresceu 18% no país entre os anos de 2005 e 2015. “No pior dos casos, a depressão pode levar ao suicídio, segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos”, considera a organização.

Este ano, o governo não fez nenhuma campanha de ações de prevenção. Contudo, aderiu ao movimento.  O Palácio Paiaguás é coberto toda noite por uma luz amarela. 

Psicologia

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Suicídio é um ato que pode ser visto, erroneamente, pelas pessoas como forma de refúgio

Mas o que leva essas pessoas a cometerem suicídio? A psicóloga Thaísa Mayara Gomes, explica que devido ao excesso de problemas que aflige a consciência humana e a dificuldade de lidar com as mesmas, o suicídio é um ato que pode ser visto, erroneamente, pelas pessoas como uma espécie de refúgio.

"Incapazes de comunicar a própria dor, os suicidas recorrem a algumas fantasias para justificar a si mesmos a autodestruição, uma fuga para pôr fim ao sofrimento humano de interromper uma existência infeliz e recomeçar, com uma nova chance para acertar", explana.

Ainda tabu, Thaísa, informa que  o número de pessoas que tiram a própria vida tem avançado muito e que no mundo, a morte por suicídio já é mais frequente que por HIV entre os jovens. "É importante discutir sobre o assunto para diminuir os índices. Existem alternativas para lidar com estas questões como acompanhamento psiquiátrico e psicológico e é possível reverter um caso de depressão, sem ser colocar fim na própria vida", reforça.

Perguntada sobre quais são os sintomas de alguém que pensa em cometer suicídio e se é possível previnir,  e se a depressão pode resultar em um quadro suicida, a psicóloga pondera que a tristeza frequente e a falta de vontade para participar de atividades com amigos são os sintomas de depressão que, quando não tratada, pode causar o suicídio. "É comum, a pessoa não conseguir identificar que está com depressão e acha apenas que não está sendo capaz de lidar com as outras pessoas ou com o trabalho, o que, ao longo do tempo, acaba deixando a pessoa desanimada e sem vontade para viver", diz.

Ela complementa dizendo que uma pessoa com ideias suicidas pode comportar-se de forma diferente do habitual, falando de forma distinta, deixando de conseguir entender o humor de uma conversa ou até, participando em atividades de risco, como utilizar drogas, ter contato íntimo desprotegido. "Além disso, como na maioria das vezes já não existe interesse pela vida, a perda de vaidade também vem a ser um sintoma visível nestes casos. "Depressão não precisa se calada, ela precisa sim ser discutida, falada, procure uma ajuda profissional correta, e fale sobre as questões que de alguma maneira te paralisam. Vamos sim é paralisar estes dados", fala.

Thaísa Gomes defende, ainda, que o suicídio seja discutido nas escolas, no âmbito familiar, nos vínculos sociais. "Transmitir informações corretas nunca é demais. Elas chegarão em alguém que precisa, podemos mudar essa triste realidade de índice de suicído". 

Baleia Azul

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Em Vila Rica, adolescente Maria de Fátima se jogou em uma represa no jogo da baleia azul

O jogo Desafio da Baleia Azul foi criado na Rússia e estimula jovens a passar por uma série de missões que podem levar ao suicídio. O suposto desafio funciona da seguinte forma: o "curador", pessoa que controla o jogo, envia diariamente, por 50 dias, o desafio, sempre às 4h da madrugada, para um grupo de pessoas sob pena de serem expostas na rede. O contato é feito pelo Facebook e Whatsapp.

O primeiro caso que pode ter o envolvimento direto do desafio aconteceu em abril, em Vila Rica, onde a adolescente Maria de Fátima de Oliveira, 16 anos, teria se jogado dentro de uma represa para cumprir a última missão do suposto jogo. A partir desse caso, que está sendo investigado sob sigilo, vários outros foram registrados, contudo, sem mortes.

Religião

Uma dor profunda, assustadora e cruel. Silenciosa. Uma decepção amorosa, falência. Desespero. Medo. Esses podem ser alguns dos motivos que levam uma pessoa a tirar a própria vida. Outros vão mais longe e respondem: falta de fé.

No âmbito religioso, o padre Elilzo Marques que congrega na paróquia Dom João Bosco explica que a vida deve ser entendida como um presente de Deus, e ir contra a própria a vida, vai contra a Lei, que está escrita na natureza humana, que é buscar a vida, a procriação e o crescimento. “Não matarás, diz o Senhor; não matarás, sobretudo a si mesmo em primeiro lugar. Cuidar da própria vida é estar em obediência a Deus, em sintonia com Deus, é você exercitar a sua fé. A colher a própria como a vida como presente. A falta de fé, hoje no mundo, principalmente na fé cristã, é um dos motivos para essa onda de suicídio, além da depressão”, disse o padre ao .

Nessa linha, o padre considera suicídio como extremo. “Mas nós temos um suicídio lento, que são as drogas, álcool, uma vida cheia de preguiça, um desânimo total, tristeza, até mesmo esse jogos radicais que atentam contra a própria vida, tudo isso são sinais da falta de olhar a vida como presente de Deus”, finaliza.

O pastor Moisés Vieira, da Igreja Batista da Paz, de Várzea Grande, concorda com o padre. Para ele, o suicídio não é brincadeira. Nesse contexto, cita dados da Instituição Nacional de Saúde Mental, que traz números sobre o tema nos Estados Unidos.

“Muita gente considera isso todos os dias, entre aspas, acabar com tudo. As pessoas pensam: vou dar cabo da minha vida. O suicídio é terceira principal causa de morte entre os jovens de 15 a 24 anos, de acordo com Instituto Nacional de Saúde Mental. Isso é muito triste” .

Nesse aspecto, questiona: Quanto de nós não conhece alguém que já pensou nisso? E quantos desses vão até o final? “É muito comum, após uma forte decepção, fim de relação, pessoas se depararem com uma profunda dor. Pensam no mais fácil: desistir, tirar a própria vida. A igreja diz que não é assim. Não é colocando fim na minha vida que eu estanco meu sofrimento. Deus é doador da vida, Deus nos presenteou com a vida. Deus confia em nós".

Para finalizar, o pastor orienta para quem sofre com essa tormenta que procure ajuda espiritual, independente de religião. “Por essas razões somos contra o desfecho desse tipo, busque ajuda espiritual e uma ajuda da psicologia”, recomenda.

Os espíritas vão na mesma linha e aconselham a trabalhar a prevenção. O Lar de Amparo Espiritual Eurípedes Barsanulfo, Obra Social da Associação Espírita Wantuil de Freitas, sob coordenação de Fransoize de Magalhães, por exemplo, oferece tratamento gratuito a pessoas diagnosticadas com depressão, síndrome do pânico ou que já tentaram suicídio.

“O intuito é tirar essas pessoas do sofrimento e mostrar a elas que tudo passa a partir do momento em que nos aproximamos de Deus e nos damos a oportunidade de realizar mudanças para a nossa reforma íntima. Assim é inevitável a cura da alma através do processo de autoconhecimento, pois a pessoa, conhecendo a si mesma, reconhecerá seus problemas e suas limitações”, explica.

Nessa linha, ela afirma que no espiritismo o julgamento de quem comete suicídio é feito por Deus. Tentam trabalhar com a prevenção máxima, demonstrando a importância da reencarnação. “Fazemos a prevenção e dizemos que viver vale a pena porque no livro Céu e Inferno tem um caso de uma moça que iludiu o namorado porque, na hora de casar, ela não quis. Aí ele se matou e a culpa foi dividida com ela. Esse agravante, nós não sabemos, só Deus, o que o levou a fazer aquilo”. Através dos livros de Chico Xavier, os voluntários tentam mostrar as causas do suicídio.

Segundo Fransoize, o tratamento é oferecido às crianças, jovens, adultos e idosos mediante a realização de triagem realizada toda segunda, às 19h. O tratamento é realizado por uma equipe especializada de médiuns, médicos, psiquiatra, fisioterapeutas, psicólogos e outros profissionais. Todos são voluntários e acompanham os casos. O paciente é atendido semanalmente pelo médico clinico geral Márcio Monteiro.

Neste sábado (30), que marca o encerramento do Setembro Amarelo, o Lar de Amparo realiza o ato Viver Vale a Pena, promove campanha para prevenção ao suicídio que reforça que uma conversa pode mudar uma vida. Em Cuiabá, a programação acontece na Praça Ipiranga, das 09h às 12h. Já em Várzea Grande, na Praça Aquidaban e no Terminal André Maggi. A campanha leva os dados alarmantes da OMS e contará com a participação do Centro de Valorização de Prevenção do Suicídio. (Com Agência Brasil).

FONTE: Alexandra Lopes

http://www.rdnews.com.br/cidades/em-mt-casos-de-suicidio-caem-quase-10-no-semestre-mas-assunto-ainda-e-tabu/90530

 

 
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