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24/07/2017
Psiquiatra: a depressão está tomando a dianteira entre as doenças

COTIDIANO / MAL DO SÉCULO - http://www.midianews.com.br
Alair Ribeiro/MídiaNews

Psiquiatra lista atendimento e serviço ideal para bem-estar mental da população

 
VITÓRIA LOPES 
DA REDAÇÃO

 

O cansaço mental tornou-se uma constante nos dias atuais, com pessoas cada vez mais acumulando o estresse e as preocupações do cotidiano, o que contribui para o aumento das doenças psiquiátricas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) contabiliza que a depressão afeta 322 milhões de pessoas no Mundo, o que representa 4,4% da população.

 

Em parâmetros nacionais, 5,8% dos brasileiros estão depressivos, representando um total de 11,5 milhões de pessoas. Ainda de acordo com os dados da OMS, o Brasil é recordista em transtorno de ansiedade, com 18,6 milhões de pessoas padecendo do problema.

 

O descaso com a saúde mental é um dos fatores que ajudam a inflar esses dados, aliado ainda à falta da prestação de um serviço psiquiátrico público de qualidade, algo visível em Mato Grosso.

 

O serviço que está montado aqui não atende às várias complexidades a que pacientes devem ter acesso

 

Em entrevista ao MidiaNews, o psiquiatra e presidente da Associação de Psiquiatria de Mato Grosso, Carlos Periotto, avaliou as causas e consequências deste aumento, além da atuação do profissional dentro da área no Estado.

 

Periotto é um dos organizadores da 21ª Jornada Mato-grossense de Psiquiatria, que acontece na Capital nos dias 4 e 5 de agosto.

 

MidiaNews - A impressão que se tem é que as doenças psiquiátricas como depressão cresceram muito no Brasil. Isso é mera impressão, maior conscientização ou de fato as pessoas estão ficando mais doentes?

 

Carlos Periotto - A OMS estima que 322 milhões de pessoas estejam depressivas no Mundo. A depressão está ganhando dianteira na carga de doença sobre a humanidade. Nós não conseguimos dizer com exatidão quais são as causas ou o porquê deste aumento, mas suspeitamos de várias coisas. Um estilo de vida urbanizado, globalizado e de muita informação, em que você precisa viver sob muito estresse. Um estilo de vida urbano estressante.

 

Está crescendo também o suicídio entre os jovens. Isso pelo fato de ele ser mais impulsivo, não ter uma estrutura familiar adequada, um jovem que não vê condições de trabalho na crise econômica, que não consegue um emprego ou está adicto de substâncias químicas. Os suicídios de idosos também cresceram. Os idosos são mais sozinhos, solitários. Tem muita gente envelhecendo sem cuidado adequado. A população brasileira está passando por uma mudança demográfica, mas será que está todo mundo envelhecendo bem?

MidiaNews - Como está o atendimento psiquiátrico na rede pública de Mato Grosso?

 

Carlos Periotto - Sob a lente de um psiquiatra - não do ponto de vista político ou de alguém que represente a questão do Executivo ou do serviço público -, nós vemos que o Estado tem poucos recursos e leitos. A nossa situação é muito precária. Por exemplo: não temos um pronto-socorro público e aberto 24 horas para atender os pacientes, pelo menos em Cuiabá.

 

Em Rondonópolis há um hospital, de uma parceria do poder público com uma associação espírita, que é o Paulo de Tarso. Então este Município tem a quem referenciar talvez uma internação psiquiátrica de urgência. Já em Cuiabá temos que referenciar para as unidades de pronto-atendimento. E, a partir destas unidades, é que poderá chegar ao Hospital Adauto Botelho. O Adauto Botelho interna pacientes, mas não recebe urgências médicas, que estão basicamente nos Caps (Centro de Atenção Psicossocial) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA). Mas isso, na nossa visão, não é a melhor maneira de tratar os pacientes.

 

Não temos estruturado no Estado um manicômio judiciário ou hospital judiciário. Se um paciente é psiquiátrico e comete um crime, ele não vai preso, ele precisa responder na medida terapêutica. Ele precisa ser internado e tratado pelo Estado.

 

MidiaNews - Quais são as outras fragilidades?

 

Carlos Periotto - O serviço que está montado aqui não atende às várias complexidades a que pacientes devem ter acesso. Na atenção primária, que são as políticas de prevenção, o psiquiatra poderia estar na posição de receber os colegas que atuam nos Programas de Saúde de Família, falar sobre pacientes psiquiátricos, ajudando a entender o assunto, assim como orientação de como ter acesso ao cuidado com a saúde mental. Na secundária, poderíamos ter mais ambulatórios de saúde mental especializados em psiquiatria e uma equipe multidisciplinar treinada para atendimento dessas pessoas. Um psiquiatra no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), para saber como agir, orientar e priorizar aquele paciente. No Pronto-Socorro Municipal, não temos a figura de um psiquiatra de plantão para atender casos de dependência química, tentativas de suicídio, agitação psicomotora, por exemplo. A atenção terciária, em que a gente poderia encaminhar pacientes para leitos de longa permanência e residências terapêuticas, não existe. É essa sensação que dá, que a quantidade de recursos voltada para essas várias complexidades da psiquiatria é muito reduzida. Não temos isso estruturado a contento da quantidade de serviço que existe.

 

Existe demanda para a gente em campanhas de prevenção, existe demanda no Pronto-Socorro, nas enfermarias de hospitais gerais, existe demanda no sistema judiciário. Mas o que sobra para os profissionais é ficar na prática privada de seus consultórios.

 

MidiaNews - A população deixa de procurar um psiquiatra porque acha que o tratamento é caro?

 

Carlos Periotto - Nem todo mundo tem condição de pagar ou manter um tratamento. O acesso a essa especialidade para a população de baixa renda é caro. O que eu quero passar é que a gente tem um serviço, mas ele é muito pobre, de pouco recurso, e não fica a contento da demanda.

 

MidiaNews - Então as pessoas de baixa renda não estão protegidas em sua saúde psiquiátrica em Cuiabá?

 

Carlos Periotto - Não estão. Na proporção em que sofrem com as doenças mentais, não. Acho que a demanda é muito maior do que a oferta de serviço para atender saúde mental delas.

 

MidiaNews - Então podemos dizer que há um descaso com a saúde mental?

 

Carlos Periotto - Sim. Nós somos preteridos, digamos assim, das prioridades que existem. Tem Hospital Ortopédico, Hospital Otorrino, mas psiquiátrico não tem. Nos hospitais privados, por exemplo, ninguém quer ter uma ala de psiquiatria dentro de sua unidade. O que seria uma ala de psiquiatria? Seria uma equipe treinada especificamente para atender pacientes psiquiátricos, com enfermeiros dessa especialidade, técnico em enfermagem com treinamento nisso, a figura do psiquiatra... Não temos isso no privado e nem no público, nenhuma ala em hospital geral ou enfermaria.

 

MidiaNews - O número de profissionais da área de psiquiatria na rede pública é insuficiente?

 

Carlos Periotto - Eu acho que se houvesse condições de trabalho, seriedade em dar continuidade nas condições de trabalho, talvez pudesse ser que a maioria desses psiquiatras estaria bem inserida no serviço público, e as pessoas seriam bem atendidas. É claro que nós precisamos continuar melhorando na prestação de serviço e treinamento desses profissionais.

 

Por exemplo, no último ano, chegaram em torno de 15 psiquiatras na cidade. Então houve uma grande entrada de profissionais aqui em Cuiabá. É difícil para eles entrarem na saúde pública porque não tem serviço. Nós percebemos que tem muitos clínicos com alguma formação em saúde mental, que estão dentro das policlínicas fazendo atendimento, que é um trabalho extremamente estressante. Colocam 15 pacientes para atender numa manhã de 4 horas. A pessoa vai ali, tocando o serviço e necessariamente não é um psiquiatra formado. Então muitos desses postos e policlínicas, Caps que hoje temos, têm alguns psiquiatras, mas nem todo mundo que está ali é psiquiatra formado de fato.

 

MidiaNews - Como a imprensa deve falar sobre o suicídio? É importante falar sobre isso, uma vez que há a questão de falar sobre e ainda poder influenciar pessoas em risco?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Carlos Renato Psiquiatra

O psiquiatra Carlos Periotto, que lamenta a falta de estrutura na rede pública

 

Carlos Periotto - O suicídio é um tema que começou a tomar gosto na mídia, e é bom falar sobre porque dá um alívio para quem tenta ajudar e precisa ser ajudado. Ter a imprensa ao nosso lado para falar da maneira correta e com cuidado é muito bom. A nossa Associação Brasileira de Psiquiatria lançou uma cartilha para imprensa, sobre qual a melhor maneira de proceder ao falar de suicídio.

 

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe publicou um romance ["Os Sofrimentos do Jovem Werther", de 1774] em que o protagonista é um rapaz apaixonado que se frustrou e se suicidou. Isso foi publicado na Europa e muitos jovens começaram a se suicidar, porque se identificaram com ele. Ocorreu uma epidemia de suicídio, por conta da forma como ele foi abordado daquela maneira, romantizada, fazendo uma certa apologia. Sempre que isso ocorre na imprensa, como uma maneira sensacionalista, romantizada ou de apologia, é errado. Muitas pessoas estão em risco suicida e, se leem aquilo, podem de certa forma se influenciar. Então a imprensa tem que fazer a divulgação com certo cuidado. Deve se falar sim de suicídio, mas como uma forma de prevenção, porque se for veiculada dessa maneira, ela tem na verdade um poder de ajudar as pessoas a se educarem e se protegerem.

 

MidiaNews - O senhor está à frente da 21ª Jornada Mato-grossense de Psiquiatria, que acontece nos dias 4 e 5 de agosto. Fale um pouco sobre o evento.

 

Carlos Periotto -  A Jornada é um evento tradicional que ocorre uma vez por ano. E o tema neste ano é "Depressão: voce sabe realmente o que é?" Nosso tema vai de encontro com o da OMS. Colocamos a depressão no ciclo da vida, falando dela na infância, na vida adulta e na terceira idade.

 

MidiaNews - Pode haver casos de depressão na infância?

 

Carlos Periotto - Em todas as idades pode haver casos de depressão. Cada um tem a sua particularidade. A criança tem mais uma alteração comportamental, um mau humor, irritabilidade... O adulto já consegue verbalizar mais que está triste. Já o idoso necessariamente tem sintomas subclínicos de depressão. Ele costuma ter queixas sómaticas, gástriacas e dolorosas e isso pode ser um quadro depressivo. Não é como o adulto, que chora, não quer fazer nada e está desanimado. O idoso pensa mais: 'Está tudo uma droga mesmo, sempre foi assim'.

Serviço:

Jornada Mato-grossense de Psiquiatria

Quando: 4 e 5 de agosto (sexta-feira e sábado)

Horário: 08h às 12h

Onde: Espaço CDL - Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá, Av. Pres. Getúlio Vargas, 750, Centro Norte, Cuiabá, Mato Grosso. CEP: 78005-370

Informações: (65) 3621-6110

 

 
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