“Fiquei ali horas deitada, ansiosa, ouvindo sons, choros, batidas de portas, sussurros, então, do corredor uma pessoa disse: ‘Deixe para amanhã, não acorde elas agora’. Passei a noite em claro. Foi a noite mais longa da minha vida. Ainda sinto o meu coração disparado quando me lembro daquele grito ardido, que depois eu descobri que era da minha avó”. Chorando, por volta das 5 da madrugada, a mãe entrou no quarto:

 “Meninas, vocês precisam se levantar, temos que ter uma conversa". Meu pai havia ido encontrar Jesus no céu. Foi a primeira vez que rezei o Credo. Minha irmã não entendeu nada, tinha só quatro anos, mas para mim tudo fazia sentido. Como era uma mocinha de 8 anos, observei que meu pai não estava bem fazia um tempo, pois a empresa estava com dívidas e alguns credores estavam bravos, fazendo ameaças.

 Naquela noite, ouvi os comentários vindos de um parente: ‘Será que mataram ele?’. Outro emendou: ‘Entraram pela janela? Ou arrombaram a porta?’. O revólver estava ao lado do corpo, o tiro foi no ouvido esquerdo. Ávida por respostas, fiquei de olho em tudo, cada sinal, palavra, respiração. Policiais trancaram a entrada da sala de jantar, onde poderia estar o corpo. (sempre quis entrar ali)

 Havia muitas pessoas espalhadas por todo lugar, entravam e saíam, sempre cochichando, algumas pegavam na minha bochecha e lamentavam a minha sorte. ‘Tão jovem e órfã’. Papai tinha 30 anos naquela época. Mas me lembro como se fosse ontem.

 Papai, levanta! Papai, levanta!’, dizia a minha irmã, chorosa, balançando o corpo do meu pai antes do velório. ‘Ele está morto, não está vendo, ele morreu’, disse enfaticamente, sem dó, porque ela era uma criança boba, melosa. De natureza muito forte, segurei meu choro por toda a vida toda, um choro muito dolorido e abafado.

 A verdade sobre a morte de seu pai surgiu para Ana Maria apenas em sua vida adulta. “Foram três anos de tentativa de engravidar, cinco abortos espontâneos, muita tristeza, uma overdose de calmantes com direito a lavagem estomacal e internação e um quase divórcio. Meu marido foi muito enfático, ou eu me tratava, ou estava tudo acabado. Do fundo poço, busquei ajuda”, conta.

“Deitada na cama do hospital, após uma tentativa de suicídio frustrada, recebi a notícia sobre a real circunstância da morte de meu pai, quase 32 anos depois. Foi quando minha mãe disse filha, ele não suportou a dor de ver todo o patrimônio de uma vida acabar, desculpe não pude dizer antes. Foi muito difícil saber o que realmente aconteceu, porque na nova história não havia um roteiro policial com mocinho e bandidos. Não havia nada heroico na morte do meu pai, ele sucumbiu à dor. Alguns podem até dizer, foi um covarde. Talvez até tenha ido para o inferno e não para o céu, como a minha mãe disse pra nós quando criança”, conta.

Após a crise, que lhe rendeu meses de licença médica, Ana Maria conseguiu retomar a vida, o relacionamento melhorou muito e hoje, aos 40 anos, ela está grávida de sete meses de gêmeos. ‘Por alguns momentos pensei sim que acabaria com o meu pai, eu vi as marcas da poça de sangue na sala, é uma lembrança que a gente não esquece jamais’. 

Ela prefere não se identificar porque não quer que as pessoas no trabalho ou mesmo os amigos saibam o que aconteceu, acha que o assunto suicídio ainda é permeado por muito preconceito. "Tive muita raiva de mim, dele, da minha mãe, da família toda. Será que não havia outro jeito? Ninguém pode fazer nada? A raiva, a culpa e a agressividade me deram uma outra força para viver, eu rompi a barreira gelada da indiferença e chorei por quase trinta dias seguidos. Chorava até dormir, abraçada com o travesseiro, como uma criança que quer colo. Os remédios do tratamento com o psiquiatra começaram a fazer efeito e tudo pareceu clarear aos poucos. O apoio da família foi essencial, por algum tempo eu não conseguia mais tomar banho, me alimentar ou vestir sozinha, parecia realmente uma criança que requer cuidados. Felizmente tudo passou, não estou curada, mas em processo, vivendo um dia de cada vez”.

Uma pessoa morre a cada 45 minutos de suicídio no Brasil; e uma a cada 45 segundos no mundo. Mesmo considerado problema de saúde pública pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o tema ainda é tabu, uma parte por desconhecimento, a outra, por preconceito. Afetadas diretamente pelo que consideram “acontecimento brutal”, famílias descrevem trajetória de muita dor, silêncio e solidão na vivência do luto.

Ao invés de silenciar e fingir que não está acontecendo nada, especialistas orientam a falar abertamente sobre o tema e oferecer ajuda são o melhor caminho para lidar com o problema.

O choque diante da morte trágica de uma amiga em 2015 promoveu grandes mudanças na vida e na carreira da médica que trabalha com saúde da família Lívia Pulcherio Monteiro, de 39 anos. Mesmo já tendo completado três anos do acontecimento, ela diz que a dor não vai embora, apenas cede lugar, aos poucos, para a resignação e a saudade.

A amiga caiu do 16º andar de um prédio. “Quis entender melhor o que aconteceu. Busquei me especializar, porque, mesmo atuando na área da saúde, estive com ela 10 dias antes e não identifiquei o risco da situação dela”.

 Depois de vários cursos na área, Lívia trabalha na unidade de saúde do bairro Parque Atalaia, em Cuiabá, e hoje tem um olhar aguçado para identificar pessoas vulneráveis ao suicídio. Situação que ela diz ser muito mais frequente do que as estatísticas mostram.

“O suicídio, na verdade, é a forma que a pessoa tem, quando não vê outra saída, de sair de uma zona de sofrimento”, afirma Lívia. “Traumas de infância como abandono, estupro ou pobreza máxima são ‘gatilhos’ que podem ser acionados em algum momento da vida gerando essa dor extrema”.

 

Quando percebe que o paciente está vivendo conflitos emocionais, rapidamente a médica adota uma postura proativa: ela pergunta de forma muito franca, mas respeitosa, se a pessoa teve ou tem a intenção de tirar a própria vida. Se a resposta for ‘sim’, o próximo passo é saber se já avançou da fase de ‘pensamentos suicidas’ para planejar a própria morte.

“Isso é crucial, porque se percebo essa evolução, convoco a equipe multidisciplinar para intervir imediatamente. Eu ligo, na frente da pessoa, para alguém de confiança e busco eliminar o objetivo idealizado como instrumento”.

O silêncio nessas horas, segundo Lívia, atrapalha mais do que ajuda. Irritabilidade, problemas para dormir e se alimentar, agressividade, isolamento ou outro tipo de mudança na interação social também podem ser sinais de que algo não vai bem e precisa ser tratado.

“Não subestime jamais o problema, no caso da minha amiga, tudo começou com as alterações hormonais da gravidez e de uma depressão pós-parto. Por muito tempo me peguei alimentando o sentimento de culpa e pensando: ‘e se tivesse feito algo diferente, teria conseguido evitar?’. Para superar meu luto, tenho estudado e me dedicado a oferecer ajuda a outras pessoas”.

O preconceito é a segunda dor dos familiares

 Uma música, um perfume, até mesmo uma cena de filme. Tudo faz lembrar Marina. Ainda no processo de luto, Teresinha do Carmo Guedes Maximo, 46 anos, corretora de seguros em São Bernardo do Campo (SP), conta sobre a filha que morreu há um ano e cinco meses, aos 19 anos.

Mesmo em tratamento contra a depressão, a jovem não resistiu. Encontrar a filha caída no chão de casa, desacordada, talvez seja a lembrança mais forte de toda a sua existência. Teresinha carregou Marina nos braços até o hospital, onde, por incrível que pareça, enfrentou resistência para conseguir atendimento. “Cheguei naquela situação e os profissionais da saúde que deveriam salvar a vida dela demonstraram desprezo. Afinal, quando alguém cai de moto, sofre um ataque cardíaco ou violência, o valor da vida é maior? Até hoje sofro ao pensar que se ela tivesse sido submetida a uma lavagem estomacal imediata poderia ter sobrevivido”.

 Pesa sobre os pais também o olhar de reprovação das pessoas que, de modo geral, acham que aquele jovem não recebia o ‘cuidado’ adequado ou sofria maus-tratos. “A gente passou muito tempo procurando um motivo, o porquê, tentando justificar, se culpando, mas aos poucos aquele turbilhão de sentimentos e pensamentos foi virando resignação. Mas o sofrimento persiste, talvez nunca vá embora”.

 Como forma de superação, a mãe resolveu montar um blog para externar o sofrimento. A ideia cresceu e se transformou em um site (https://nomoblidis.com.br/), que dispõe de informações para ajudar quem está enfrentando problema similar.

 “Para quem fica é a pior dor do mundo, a família fica destruída, e é um luto complicado, solitário, cheio de preconceitos, as pessoas cochicham pelos cantos, porque ninguém quer falar com você, incomodar, mas, independente do tipo de morte, não tem como apagar a vida de uma pessoa, não dá para tomar um remédio e esquecer um filho. É tão difícil que no começo achei que ficaria louca”.

 Teresinha acredita que o estigma trazido pelas religiões pode piorar muito o sofrimento da família, por isso optou por se afastar dessas crenças e prefere ter sua própria fé. “Quem tem pensamento suicida está doente, precisa de ajuda e apoio, não de julgamento, por isso quando sou procurada principalmente por jovens no meu blog eu sempre digo para não desistirem de si mesmos; e ajudar os outros de alguma forma está aliviando a minha dor”.

 Embora mais de 90% dos casos de suicídio possam ser prevenidos, nem todos podem ser evitados. Primeiro porque os sinais nem sempre são claros. Além disso, muitos pacientes, mesmo em acompanhamento, não resistem ao impulso. Aprender a lidar com a escolha do outro é, para Teresinha, um aprendizado contínuo. “Se houvesse uma cartilha do que não fazer, eu colocaria certas expressões que menosprezam a dor do outro. Quem está em um buraco escuro não precisa ser empurrado mais para baixo”.

 Seguir a mãe após a morte

 De repente houve um estopim forte, seguido de um silêncio mortal. Neste mês de setembro faz 35 anos que Maria Amélia Irigaray Nogueira Borges, 37 anos, atirou contra si mesma, deixando um vazio de saudade nos quatro filhos e no marido. Entre altos e baixos, Iracema Borges, que na época tinha 14 anos e acompanhou a trajetória descendente da mãe na depressão, diz que precisou buscar recursos na psicologia, no coach e nas artes para superar a dor que nunca sara.

 “Há uma tendência dos filhos seguir pais, avós e bisavós na morte; só quem enfrentou algo similar sabe como é difícil lutar contra essa vontade, mesmo que inconsciente, de morrer junto. A gente se sente desvitalizado, infeliz, como se faltasse um pedaço de nós e que sem isso não conseguimos ficar de pé, ou sermos inteiros. Apesar de exigir esforço, é possível superar este quadro”, desabafa a coach, que virou professora universitária, palestrante e tem projetos que auxiliam pessoas a descobrir ‘conexão’ profunda com a vida.

 Recentemente ela esteve com uma turma de alunos em Malta (Europa), onde desenvolveu um curso voltado ao equilíbrio emocional, oportunidade em que mais uma vez pôde ressignificar a morte da mãe. Entre muitos anos de estudo e pesquisa, inclusive na Universidade de Harvard (EUA), Iracema descobriu uma das ferramentas mais importantes em seu processo de cura: a psicologia positiva, desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Martin Seligman, e conhecida como Ciência da Felicidade.

 “Esse tema é tão sério e necessário que a Universidade de Brasília (UnB), de forma pioneira, começou a ministrar a disciplina ‘Felicidade’ neste semestre com o intuito de auxiliar estudantes a se conhecerem e aprenderem a lidar com a ansiedade, a pressão e o medo do fracasso. Algo assim transforma a nossa vida, fomenta o autoconhecimento para aprender a lidar consigo mesmo e com toda essa bagagem social e familiar que muitas vezes nos leva para baixo”.

 Se ainda hoje há estigma em relação a técnicas da psicologia como esta, imagina há mais de 30 anos, quando quem precisava de ajuda psiquiátrica era tratado como ‘fraco’ ou ‘louco’. “Hoje temos muitos meios de identificar e tratar as doenças psíquicas, do ponto de vista físico, com medicamentos, e também na área emocional, com várias áreas da psicologia. Nada disso existia na época da minha mãe, que perdeu um filho, dois irmãos e um pai de forma trágica em menos de cinco anos e adoeceu”.

 A tristeza nunca passa, mas se torna suportável. Do ponto de vista do amadurecimento humano, as situações traumáticas podem incapacitar ou promover uma ferramenta emocional fantástica: a resiliência.

A maioria das pessoas que contribui significativamente com a humanidade, como Nelson Mandela, teve uma infância difícil. “Para reverter esse quadro de adoecimento emocional em massa, teremos de voltar a tratar o ser humano como um ser holístico e não apenas racional. Aprender a gerenciar emoções negativas e positivas e a ter uma ideal de vida mais profundo, em que haja mais amor e conexão com a natureza”.

 Números dolorosos

 A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) registrou entre 2014 e 2018 um total de 700 suicídios em Mato Grosso. Em torno de 4% em Cuiabá e Várzea Grande, onde houve 33 registros. Só este ano, o estado somou 130 casos, dos quais mais de 80% das vítimas são homens, com números distribuídos em todas as faixas etárias, inclusive na infância, mas o volume está mais concentrado entre 36 e 59 anos.

 O tenente da Polícia Militar Thiago Pereira, do 3º Batalhão da PM do Grande CPA, atende 114 bairros e diz que o número das ocorrências referentes a suicídio consumado e de tentativas vem aumentando entre a população, quase que diariamente há atendimentos desse tipo, mas que não são noticiados até como forma de não estimular o problema.

 Mesmo com sete anos de polícia e treinado para lidar com uma situação ‘limite’, Pereira alega dificuldade em lidar com o suicídio, por isso orienta familiares a não intervirem diretamente.  Com 100% de sucesso em suas intervenções, ele agradece a oportunidade de trabalhar salvando vidas. “Não importa a motivação, quando a gente chega para o atendimento quer que aquela vida seja preservada”.

A luta contra a dor

 Quando uma pessoa tira a própria vida, ela normalmente quer aliviar a sua dor. A psicóloga Fernanda Lima, que trabalha com jovens e adultos, explica que todos em algum momento da vida vão estar mais suscetíveis a pensamentos ‘suicidas’. Aprender a lidar com a angústia e as frustrações, além de ter meios de aliviar o estresse no dia a dia, é um passo importante e que muitas pessoas não conseguem sozinhas.

 Uma amiga que enfrenta um pós-parto difícil, um familiar que terminou um namoro ou casamento, alguém que perdeu um emprego ou que vivencia a falência da empresa. Os motivos para desencadear um período de crise são variados, mas acontece que nem sempre quem está por perto está preparado para ouvir e apoiar. “Geralmente externamos que o término do relacionamento não é nada, mas não há como medir o grau de sofrimento daquela pessoa”.

 Fernanda pontua que aprender a ouvir com amorosidade é sem dúvida uma lição dos tempos atuais, porque em uma conversa muitas vezes casual a pessoa que está com pensamentos suicidas pode externar algum sinal e também se sentir à vontade para pedir ajuda. “Se não der conta de acolher a dor do colega, ajude-o a buscar ajuda, existem muitos canais, entre eles, o CVV, onde há equipe treinada para ouvir e dar atenção, sem julgamento”.

 Assim como alcoolismo, suicídio também pode ser hereditário. Quando acontece em uma geração, poderá se repetir nas próximas, em situações similares de pressão e medo. No caso da depressão, estudos mostram que filhos de pai e mãe depressivos têm cinco vezes mais chance de ter o mal. “Por isso é tão importante essa família olhar para o problema, não deixar virar um tabu que poderá afetar seus descendentes, virando um círculo vicioso e trágico, onde quem fica sente efeitos devastadores”, acrescenta Fernanda.

 Tratamento ainda é tabu

O suicídio é mais comum em pacientes graves, que têm uma doença psíquica, como depressão e/ou transtorno de personalidade (que leva à impulsividade), que combinam momentos de crise a bebida alcóolica ou outras substâncias. Por outro lado, como 25% da população mundial têm algum transtorno mental, qualquer um pode em algum momento desencadear o gatilho ‘mortal’. Mesmo reconhecendo o problema, o sistema de saúde brasileiro não é flexível para acompanhar a evolução do tratamento.

Para o presidente da Associação Mato-grossense de Psiquiatria, Carlos Periotto, assim como outras doenças, a depressão precisa ser tratada adequadamente com uso de medicamentos, pois eles ajudam a reverter alterações nos neurotransmissores cerebrais envolvidos na sensação de bem-estar.